No passado tudo era muito mais simples.

Ou você era capitalista selvagem ou comunista leninista. Os canais abertos eram só a Globo, a TVS, a Bandeirantes e a Manchete. No Rei do Disco, você comprava ou disco brasileiro ou americano. Existia também uma divisão muito simples e definitiva entre os fãs da Madonna e da Cindy Lauper, entre os que tinham vídeo VHS e os do Betamax (eu tive uma máquina loser dessas) e entre os fãs do Atari e os do Odissey.
Obviamente foi bom algumas dessas categorias terem se extinguido. Hoje, eu posso desperdiçar um domingo inteiro vendo tranquilamente a Sony, a Fox ou qualquer um dos meus trocentos canais, em vez de ter só o Seu Sílvio ou o Fausto Silva pra ver. Nas lojas de discos, os vendedores já descobriram que na Inglaterra se faz música e que até em países longínquos como o Japão tem gente fazendo um sonzinho legal. O fato deles também terem se dado conta de que existem estilos musicais, como o eletrônico, por exemplo, também me poupa da desagradável probabilidade de encontrar um álbum do Modern Talking na mesma fileira em que está o MC5.
Mas hoje, a quantidade de categorias criadas para qualificar as coisas chega a ser assustadora. Principalmente no que diz respeito a pessoas e situações.
As que mais me assustam são as categorias com as quais meu avô costumava fazer piada:
- Olha, Pitoca*, não existe ex-morto, ex-anão, nem ex-gay, dizia ele.
Pois é, vovô, hoje existe. Pelo menos eu já ouvi pessoas falarem que são ex-gays e ex-lésbicas. Não que eu entenda o mecanismo. Tenho um grande amigo que me disse, certa vez, entre risos, que tentou várias receitas caseiras pra deixar a homossexualidade, dessas tipo simpatia tira-quebranto. O resultado da mandinga é que ele é casado há mais de dez anos com outro amigo meu.
Meio também é divertido.
Meio gay, meio lésbica, meio namorado, meio rolo fixo (essa eu ouvi esses dias).
- A gente meio que tem um rolo, tipo assim, de vez em quando.
É a tal da
open relationship. O cara é meio que teu namorado. Ele é quando quer esquentar a pança debaixo das suas cobertas numa terça feira chuvosa, mas deixa de ser no banheiro do James no sábado. E o status de open não te dá nem o direito de refrescar sua raiva aplicando nele a saudável prática do
joelhaço.
Sei que tem gente que adora ficar em cima do muro e que não toma decisões justamente para fugir delas. Mas, nesse assunto, eu prefiro os saudosistas. Ter opiniões firmes (não confundir com teimosia, essa também é detestável) num tempo em que pouca gente se define é mesmo
very, very, exciting.
*Pitoca é o apelido de vovô para Melinda Rowles.